Olho para a minha produção artística e vejo uma metonímia de mim, um franquestein diáfano que reboa gritos surdos de tempos contemporâneos. Com o olhar errante vou devorando o mundo, ora o sutil, o transcendental e as imanências, ora o concreto, a arquitetura, o degradado e o feio capturam meu olhar, num de repente falo do tempo, mas também do cotidiano ordinário. Trago (do verbo tragar) imagens indeléveis que servirão de gatilho para as minhas criações. As vezes parto do cotidiano, das minhas experiências diárias como mãe e dona de casa, como cidadã de uma grande cidade, que transita pelas ruas, em grandes deslocamentos rotineiros, e vê na cidade a extensão da casa. Outras, parto de imagens vindas de meu imaginário. Elas surgem na surdina, vão ganhando forma, rascunho no caderno e de repente tomam uma dimensão que a saída, para me livrar desses assédios, é realizar a ação. Interessa-me não o corpo em si, mas o que há entre-corpos: relações. Relações entre corpo e arquitetura, corpo e objeto, corpo e vestimenta, corpo e outros corpos. É neste espaço que construo narrativas cirúrgicas, que atuarão na brecha do ordinário. Me atrai o diálogo entre o dentro e fora, público e privado, sobretudo como os modos micro e macro se fundem, em alguns momentos, numa mesma esfera. Elejo a performance por que é uma zona difusa, movediça, onde as fronteiras não são rígidas, mas flexíveis e permeáveis, na qual posso transitar – sem pudor – entre as linguagens. Busco com minha produção artística instaurar espaços de (con)vivência, insistência e resistência