Um bom encontro

 2019    

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Exposição Um Bom Encontro

Podemos entender o “bom-encontro” como momento onde nosso corpo é provocado por um corpo externo, fazendo com que nossa sensibilidade em interagir com o mundo seja ampliada e estendida, possibilitando oportunidades de criar afetos. Este corpo alheio pode ser tudo que está no mundo: som, planta, pedra, luz, água, animal, parede, terra, comida, insetos, cheiro, escuridão, enfim tudo.

 

Observando as performances de Mariana Vilela noto que seu interesse principal está em organizar eventos criando situações onde o seu corpo é elemento ativo na ação de afetar o outro bem como oferece a chance do outro ser também esse agente.

 

A cada trabalho a artista gera estados para experimentarmos formas de pensar e existir em diferentes potências. Como na série “Mapa dos Sonhos”, registros fotográficos onde Mariana se coloca dormindo em espaços que passam pelo processo de desaparecimento, na obstinação de nos manter atentos às transformações do mundo produzidas por nossa passividade ou atividade. A utilização da fotografia neste caso é uma forma de replicar a ocasião em que a artista encontrou aqueles lugares, permitindo assim que nós sejamos afetados por este momento. O mesmo acontece no vídeo “sal(iva)”; neste caso temos a sensação de se presenciar a ação.

 

Outra forma de articulação é a performance “COMfio” onde Mariana atua solitariamente deixando no caminho do espectador uma escultura em madeira feita sob medida para acomodar sua coluna vertebral ligada à parede com linha de costura. Neste caso além da relação com o objeto também nos é requerida a construção de uma memória que não temos, já que não estávamos presentes no momento em que ela forja e se põe tencionando a urdidura. Somos afetados pela ideia de um corpo humano, um tronco de madeira com peso próximo ao da artista, colocado no lugar antes ocupado por ela.

 

Finalmente falemos sobre os trabalhos que só fazem sentido quando ocorrem ‘ao vivo’ ou quando tem a participação o espectador. É o caso de “DeCOR”, em que Mariana tece uma urdidura entre duas esculturas em madeira no formato de coração para manter a conexão entre duas pessoas. Apesar da aparente literalidade da situação, sentir o toque quente da peça e olhar um coração do lado de fora da pele cria um estranhamento neste encontro despertando sensações diferentes em cada participante.

 

No atual estágio de organização social em que nos encontramos onde muitas experiências diariamente reduzem nossa sensibilidade de interlocução entre corpos, nesta exposição temos a oportunidade de experimentar, refletir e provocar modificações para estimular a liberdade em gerar bons-encontros.

 

Cristina Suzuki

artista visual, curadora da exposição