Mesa Circulante

                                                    Performance Relacional, 2018

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CONVERSAR                          TECER                                         TENCIONAR

 

Instalada na praça do côco em Barão Geraldo/Campinas, a artista começa a tecer a urdidura para fazer uma renda sol. Uma placa ao lado convida as pessoas: "Venha conversar comigo sobre política, futebol e religião que eu te ensino a fazer uma renda sol". Aos poucos as pessoas, principalmente mulheres, vão se aproximando e sentando-se para tecer, tensionar e conversar sobre assuntos que pelo senso comum acabam sempre em discussões e conflitos.

 

Mesa Circulante

2018

Performance Relacional

 

Mesa, 4 bancos, uma placa com a instrução, 3 teares de pego redondos, agulha e linha.

2 a 3 horas de duração

Praça do côco, Barão Geraldo/Campinas

Fotos: Leo Andrade

 

 

 

(texto publicado no Facebook dia 28/04/2018)

 

Sábado, dia de feira. Montei uma mesa retangular para receber três teares de prego circular. Acomodei três bancos em frente à mesa e dois cartazes escritos a mão, posicionados em pontos estratégicos, convidavam, em tom imperativo, as pessoas a vir conversar comigo sobre política, religião e futebol.

 

" Venha conversar comigo sobre politica, futebol e religião que eu te ensino a fazer Renda Sol".

Renda sol ou Tenerife, também conhecida como nhanduti, técnica de tecelagem secular, que veio para o Brasil com as espanholas na época das imigrações do séc XIX e XX.

 

Um espaço aconchegante foi estabelecido em meio a feira de artesanato e gastronomia da praça do côco, em Barão Geraldo/Campinas. Curiosos, os passantes se aproximavam para ver o que eu estava tecendo, achavam estranho quando eram convidados a conversar sobre política, futebol e religião.

 

"Difícil falar desses três assuntos, né moça!?"

"Por esses três assuntos muita gente morre."

Mas os olhos curiosos perguntavam sobre a técnica de tecelagem pouco usual.

"É uma Renda sol."

Os olhos cintilavam a recordação que pulsava na memória. A senhora parada a minha frente sabia que já tinha visto algo parecido.

"Tenerife. Talvez a senhora conheça por esse nome."

"Ah, claro! Minha vó fazia isso.

 

Mas acho mesmo que os militares deveriam voltar a governar esse país. Quando eles estavam no poder eu tinha 24 anos, não vi nada do que as pessoas contam: torturas, gente desaparecida, mortes. Para as pessoas de bem não aconteceu nada. Para falar que não vi nada, em 64 eu trabalhava na empresa de telecomunicações, certa vez cheguei e vi um caminhão do exército com um monte de soldados armados. Todas as empresas de telecomunicações passaram a ser deles, né? Depois disso não vi mais nada.

Muito bonito esse trabalho. Tem que ter muita paciência. Não tenho. Minha vó tinha.

 

Na época dos militares a gente podia andar sossegada nas ruas, não tinha bandido, as escolas públicas eram boas e tinha hospital pra todo mundo."

"Não é difícil tecer, a senhora quer tentar?"

"Não. Estou com pressa. O problema que não temos em quem votar. Um bando de velharia corruptos. Políticos velhos com idéias velhas."

"Mas temos dois candidatos novos no cenário político nacional, também novos de idade: Manuela D'Ávila e o Boullos".

 

"Mas as idéias deles são velhas, né? Eu não gosto desse tal de comunismo. Tira tudo o que é da gente, não somos donos de mais nada."

A tensão do assunto era amenizada pelo espaço acolhedor dos trabalhos manuais. Outros transeuntes paravam  para escutar a senhora que bradava a favor dos militares. Assim como eu, apenas escutavam, não retrucavam. Não seria legítimo seu ponto de vista? Coerente com sua forma de viver? Com seu corpo, seus movimentos e sua voz?

Dali mais um pouco outros tantos passantes chegaram, uns curiosos pelo tear, outros pelo aglomerado de pessoas que se formou ao redor da mesa, outros ainda intrigados com cartaz.

 

Entre a tensão dos fios e linhas, a renda que era tecida promulgava a conversa sobre política. O homem que tinha deixado de seguir vários amigos no Facebook e bloqueado outros tantos, só postava agora assuntos amenos. Remédio para seu estrese. A moça que discutiu com seu irmão mais velho na semana passada sobre o Moro e suas ações, descobriu no dia anterior que seu outro irmão compartilhava do mesmo ponto de vista do irmão mais velho, certamente contrário aos seus. Decidiu não conversar mais sobre tais assuntos, a prioridade é manter a irmandade, mesmo que seja um desconforto de irmão! A estudante colombiana também vive o descrédito na política. Por lá haverá eleições, assim como cá, carecem de um líder para unir o país fragmentado.

 

No vai e vem das agulhas, a pintura circular se dá em tons amarelos, vermelhos, violetas e verdes, ora de forma homogênea e clássica, ora com texturas, ora com a subversão da técnica.

Subversivo, subverter-se, subvertido.

 

É na subversão do dito popular: &não se discute política, futebol e religião&, que a renda sol foi sendo tecida. Na tensão entre o afeto e o cuidado das artes manuais, tão feminino, e o conflito da diversidade de vários pontos de vista da discussão, tão masculino, é que a performance se deu. O pensamento tangenciado pelas mãos em dança, o movimento do tecer conduzido pelo pensar com respiros, cores, texturas, silêncios e escutas.

Assim passamos a manhã: tecendo tensões, conversando linhas diferentes, circulando pinturas inesperadas, comungando texturas delicadas e inapropriadas, abrindo possibilidade para o conflito. Conflito que é inerente ao ser humano, posto que somos puro conflito e esse eterno conflitar-se nos põe a mover.